Foram as cicatrizes que construíram os caminhos

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A primeira informação realmente importante, é a besteira da ilusão que a sociedade nos impôs como objetivo de vida, de que devemos ter sucesso sempre, uma bobagem que tatuamos e buscamos incansavelmente conquistar, não como objetivo, mas como obrigação.

Fomos formatados para fazer mais, conquistar mais, parecer ter mais, produzir mais e o mundo precisa perceber que está tudo bem e que temos total auto controle. Não existe a opção fracasso, porque isso é sinônimo de defeito e falta de caráter.

Inventaram um estereótipo de super herói vencedor, que todos devem vestir este perfil para serem aceitos, que não ser essa perfeição é não ter o reconhecimento e aos derrotados somente a sarjeta como amparo.

Ninguém vive uma vida onde existe somente vitórias e é uma ilusão pensar desta forma, vivenciar a coroa de louro dos podiums e o chorar no chuveiro, faz parte da vida.

Todos carregamos nossas dores e olhar para elas é uma forma aprendizado, inclusive eu carrego minhas mazelas que fazem parte da minha história, cicatrizes maiores e outras que são somente pequenos machucados, dificilmente se consegue excluir as cruzes que arrastamos e é com estas dores que devemos aprender a buscar superação. As vezes elas até já não machucam mais, mas lembram, que foram escolhas feitas e que deixaram marcas.

Talvez eu até devesse buscar apagar estas cicatrizes, quem sabe superá-las, mas acredito que saber que estão ali é uma forma de nunca mais repetir aquele formato de erro, existem feridas que se tornam aprendizados daquilo que se deve evitar. É como o provérbio que diz, “a curiosidade matou o gato”, depois de tombos, tropeços, mancadas e sustos, se aprende a não se arriscar, a evitar se machucar.

Acredito que não seja interessante apagar um erro por completo, mas sim, compreender a conviver com ele, a dor deixa de ser algo penoso para ser um aprendizado que mostre até onde se pode ir.

Existem dores que jamais poderão ser reescritas, entre as minhas estão o fato de não ter compreendido minha filha autista, faltou a compreensão e conhecimento naquele período para entender as suas angústias, minha falta de entendimento provocava brigas que carrego com culpa, por não ter conseguido enxergar o que hoje compreendo. Depois de um grande desentendimento com meu pai, ficamos quase três anos afastados e sem conversar, foi um período da vida, que nós dois perdemos. Amizades e relacionamentos importantes que poderiam ter sido muito mais relevantes e duradouros, que deixei escapar entre os dedos por não ter maturidade, por não perceber o valor que possuíam. Projetos profissionais que poderiam ter dado certo, mas que fracassaram porque ainda não se tinha conhecimento suficiente.

As cicatrizes que um dia representaram frustração, hoje revelam que cada derrota deixou um aprendizado, são marcas dolorosas que me ensinaram a seguir adiante.

Acredito que todos tenham cicatrizes que foram adquiridas pela vida, umas são maiores e que machucam mais, as vezes são pequenas, algumas são evidentes e outras são dores guardadas a sete chaves, cada um carrega suas cicatrizes e aprende, à sua maneira, a conviver com suas amarguras.

Alguns evitam a todo custo olhar para elas e que bom que conseguem botar uma pedra em cima, esquecem no passado o que viveram e somente olham para seus propósitos no horizonte. Mérito daqueles que tem essa capacidade de discernimento.

Interessante é que ninguém gosta de olhar para as experiencias ruins, as redes sociais são um exemplo de que só mostramos o lado belo e todos buscamos situações que promovam momentos de glória. A vaidade também faz parte da nossa personalidade, mas ela vicia e nos cria a ilusão de buscar aprovação em tudo.

Entretanto, tudo aquilo que nos promove crescimento não surgiu apenas de elogios e afagos, o que realmente nos fez crescer foram as críticas sinceras, os erros cometidos e as consequências das escolhas que fizemos, foram os desconfortos que promoveram reflexão, os momentos de fracasso que exigiram resiliência e que mostraram como agir com prudência. Foram estes arranhões que construíram com maturidade a nossa autoestima, este foi o combustível que promoveu a motivação para continuar a caminhar, mesmo tropeçando.

Fato é que existem batalhas que nós também optamos por não lutar, as vezes nem era algo que justificasse se empenhar; não é preciso vencer sempre e existem derrotas que não nos pertencem, ser solidário com as dores alheias é ter compaixão e é uma forma de crescer sem sofrer, é quando se aprende olhando e não se machucando.

Pelas minhas derrotas, peço perdão por não ter tido naquele momento, a consciência que tenho hoje, foram esses degraus, construídos entre erros e aprendizados, que tornaram meus passos mais seguros. É com eles que me conselho para seguir adiante.

Errar faz parte do caminhar e as quedas que tivemos, são motivos para continuarmos aprendendo a nunca parar de buscar o algo a mais, aquilo que é bom e saudável, mas caso, alguém lhe diga que nunca errou, as vezes é porque nunca parou para ajudar os muitos que atropelou pelo caminho.

Lá no fundo, existem momentos que gostaríamos de reescrever, mas isso não é possível, o melhor é compreender que se esteve lá e que somos melhores porque aquelas cicatrizes já não doem mais.

PROVOCAÇÕES QUE DESPERTAM REFLEXÃO

Vale observar que costumamos julgar os erros dos outros com muito mais rigor do que analisamos os nossos, será que realmente somos justos ou somos menos exigentes com nossas falhas? Se hoje você pudesse conversar com a pessoa que era quando cometeu seus erros, o que diria a ela? Será que é possível contribuir com outros, olhando para as nossas experiências?

Paulo C. Andrighe

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