E se o egoísmo já existir dentro de nós?

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Você já parou para pensar que, mesmo não admitindo, pode ser mais egoísta do que imagina?

Não é sobre aquele egoísmo evidente, típico dos personagens de novela, que só pensam em si mesmos e ignoram completamente os outros. É sobre um egoísmo mais sutil, que se esconde nas pequenas escolhas do cotidiano e, justamente por parecer tão comum, muitas vezes passa despercebido até por nós mesmos.

Ele é ainda mais discreto do que não ceder o lugar para uma pessoa idosa ou não permitir que alguém passe à nossa frente porque nós também estamos com pressa. Ele está em escolher sempre o restaurante que queremos, o programa de televisão que preferimos ou o tipo de filme de que gostamos, sem considerar aquilo que os outros gostariam. Esse egoísmo aparece quando nossas preferências se tornam tão importantes que deixamos de perceber as vontades dos outros.

Às vezes, precisamos ser um pouco egoístas, e isso não faz mal. É uma forma de valorizar nossas necessidades de autocuidado. O importante é perceber quando esse comportamento deixa de ser pontual e passa a ser constante.

Na Bíblia Sagrada (NVI), em Provérbios 18:1: “Quem se isola busca interesses egoístas e se rebela contra a sensatez”. É quando o interesse próprio passa a ocupar o centro das decisões e o egoísmo ganha espaço em nossa maneira de agir. As escolhas deixam de considerar os outros e passam a ser guiadas quase exclusivamente pelo que queremos, pensamos ou acreditamos ser melhor. É quando as nossas necessidades se tornam sempre mais importantes.

Imagine um casal decidindo onde passar as férias: um quer praia e o outro prefere viajar para o interior. Se a decisão começa pela preferência de um deles, o problema não está no destino, mas na dificuldade de considerar a opinião de quem está ao seu lado.

Isso também aparece em situações do cotidiano: quem escolhe o canal de televisão, em qual restaurante a família vai jantar, qual passeio será feito no fim de semana ou até mesmo como determinado valor em dinheiro será utilizado. O problema surge quando a vontade de uma pessoa se torna regra e a do outro passa a ser apenas uma opção.

Nas relações familiares, o egoísmo pode se manifestar de forma silenciosa. É comum encontrar pessoas que deixam de lado suas próprias vontades para se adaptar àquele que acaba comandando as decisões. Muitas vezes, isso acontece quando um dos integrantes trabalha, paga as contas e cumpre grande parte das responsabilidades e, por acreditar que isso lhe dá maior autoridade, passa a colocar suas próprias necessidades acima das demais.

É preciso olhar para os outros integrantes desses ambientes e perceber se eles têm voz, espaço para se expressar e liberdade para dar opiniões. Nesses lares, não é necessário ouvir a frase “Aqui quem manda sou eu”. Às vezes, a imposição acontece de forma silenciosa: os outros se diminuem, abrem mão de suas vontades e, com o tempo, apenas uma voz passa a ser considerada, enquanto as demais aprendem a permanecer em silêncio.

É necessário um exercício de percepção para que possamos reconhecer o quanto nossas atitudes podem revelar sobre nosso egoísmo. Quantas vezes escolhemos fazer apenas o que queremos, mesmo sabendo que outras pessoas também gostariam de participar? Quanto tempo desperdiçamos navegando sem propósito pelas redes sociais, quando poderíamos estar presentes com quem está ao nosso lado? E quantas vezes, mesmo tendo condições de ajudar nas tarefas de casa, preferimos não fazer nada, usando como justificativa que aquela responsabilidade não é nossa?

São pequenos sinais de egoísmo que, quando se repetem e passam a fazer parte da personalidade, revelam aquilo que muitas vezes cultivamos, mas que poucos estão dispostos a admitir. O curioso é que alguns podem até levantar a bandeira do “antiegoísmo” e, bem lá no fundo, se perceberem como um egoísta em sua melhor versão, daqueles que, pela intensidade do personagem, poderiam facilmente ganhar um papel de destaque em uma grande novela da TV aberta.

O egoísmo existe quando nos recusamos a ouvir opiniões que contrariam aquilo em que acreditamos, quando tentamos impor nossas verdades ou quando buscamos justificativas para não reconhecer os próprios erros. Ele também se revela na pretensão de esperar dos outros atitudes e atenção que nós mesmos não estamos dispostos a oferecer.

Isso não significa que algumas atitudes nos transformem em pessoas egoístas. O importante é ter bom senso e consciência para observar se esses comportamentos são apenas situações pontuais ou se estão se tornando parte da nossa maneira de agir com os outros.

Observar nossas atitudes é compreender que, numa discussão no relacionamento, preservar a relação é mais importante do que provar ser dono da verdade. Que é melhor estar com os filhos do que ficar na tela do celular. Que é importante respeitar a opinião dos amigos, porque eles têm o direito de pensar diferente. No trabalho, é importante reconhecer e dividir os méritos com aqueles que contribuíram para que os resultados acontecessem.

Precisamos compreender que ceder não significa perder; é simplesmente permitir que o outro também possa experimentar, escolher e aprender. Ninguém aprende apenas observando; é preciso viver os acertos, os erros e lidar com as consequências das escolhas. Quando, por egoísmo, impedimos que os outros tenham essas oportunidades, acabamos não apenas controlando suas experiências, mas também limitando seu crescimento.

Ser egoísta em alguns momentos não faz de você uma pessoa má. Às vezes, é só uma forma de autoproteção ou uma reação diante de situações difíceis; só não pode virar rotina. Ser menos egoísta é uma oportunidade de construir relações mais leves, aliviar o peso que colocamos sobre os ombros e aprender a enxergar as pessoas com mais generosidade.

PROVOCAÇÕES QUE DESPERTAM REFLEXÃO

Se buscamos fazer com que as nossas escolhas sempre prevaleçam, ainda podemos dizer que estamos considerando a opinião dos outros? Até que ponto defender nossas vontades é saudável, mesmo quando passa a ser uma forma de controlar o outro? Será que estamos ensinando nossos filhos e os que estão à nossa volta a fazer suas próprias escolhas ou estamos escolhendo tudo por eles, com a desculpa de que é para facilitar a vida deles?

Esse é o meu olhar. Se ele despertou alguma reflexão em você, compartilhe suas percepções e vamos transformar este monólogo em uma boa prosa.

Paulo C. Andrighe

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