A culpa é do vendedor que criou uma ilusão

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“Vou revelar um segredo somente para você, leia até o final antes que eles tirem do ar, é algo muito sério e o algoritmo vai derrubar esta verdade que estão privando você de saber, este conhecimento irá mudar sua vida, este segredo eu não posso mais guardar.”

Essa informação apareceu em uma rede social e as pessoas precisam compreender que isso não tem nada de especial, é simplesmente uma estratégia para despertar interesse, criar identificação e aumentar as chances de obter um resultado financeiro, para quem está buscando vender um produto ou serviço.

“Eles não querem que você saiba, mas eu vou revelar, vou contar tudo para você, somente você saberá desta informação. Vou publicar nas redes sociais e você não pode perder!”

Essas mensagens são construídas para parecerem reais e precisam transmitir a sensação, de que alguém está quebrando uma regra, revelando algo que não pudesse contar. É essa aparente sinceridade que faz o consumidor se sentir especial e privilegiado por ter acesso a uma informação sigilosa. Mas, não existe segredo algum e a exclusividade que foi “confidenciada” faz parte do charme da abordagem. No fim das contas, é estratégia de vendas disfarçada de revelação.

“As primeiras 100 pessoas que comprarem, em “todo o Brasil” e que ligarem agora, terão acesso a essa oportunidade única, que foi feita exclusivamente para você.”

A ideia é despertar a sensação e a expectativa de ser privilegiado por ter acesso, antes de muitos outros, embora ela tenha sido publicada na internet e esteja ao alcance de milhares de outras pessoas. Soma-se a isso a urgência de parecer imperdível, irá desaparecer a qualquer momento e você precisa agir antes que seja tarde demais. Então ficar de fora não é uma opção.

Estamos sendo alimentados para continuar a consumir de forma desenfreada, mesmo sem existir desejo ou uma necessidade de compra.

“Última oportunidade!”, “Poucas unidades!”, “Só para quem está aqui!”, “Não conte para ninguém!”. Essas frases são usadas para criar urgência e fazer você acreditar que não pode perder aquela oportunidade.

O problema é que essa pressão acaba levando muitas pessoas a comprar sem pensar, compram produtos caros, sem qualidade, que não precisam e gastando as finanças que muitas vezes não têm. E o que parecia uma oportunidade, será somente mais uma dívida.

Observando as suas últimas compras realizadas, vale fazer a pergunta: “Eu comprei porque realmente precisava ou porque fui convencido a comprar?”. Ao analisar se percebe que o nosso dinheiro, muitas vezes está sendo gasto sem necessidade. O rico dinheirinho que conquistamos com tanto esforço vai embora simplesmente porque alguma propaganda, promoção ou conversa bem elaborada conseguiu nos convencer, de que precisávamos gastar.

O mais interessante é perceber que estamos sendo induzidos a comprar cada vez mais, mas ninguém está colocando uma arma em nossa cabeça ou contando grandes mentiras. Estão apenas apresentando informações de uma maneira capaz de despertar nosso desejo de comprar, nós estamos nesse jogo e precisamos reconhecer nossa responsabilidade, entender que cuidar do próprio orçamento, depende das escolhas que fazemos com o nosso dinheiro.

Quem vende produtos e serviços está estudando para vender mais e com menos esforço, o curioso é que nesse jogo, enquanto um lado se prepara para apresentar de forma mais atraente e convincente, o outro pouco se preocupa em aprender a comprar e consumir de forma consciente. Infelizmente, o mercado consumidor está cedendo muito fácil e sem perceber, que já havia sido convencido antes mesmo de entrar nesta disputa.

A parte desconfortável é que não podemos colocar toda a responsabilidade em quem está vendendo; o mercado está fazendo o seu jogo e naturalmente, quer ganhar. Cabe ao consumidor reconhecer seus limites, entender quando não tem dinheiro para gastar e trancafiar as emoções, que servem de combustível para compras impulsivas.

Arapuca é uma armadilha feita de gravetos para capturar pequenos animais e sem fazer uma comparação, com aqueles que tem dificuldades para colocar a vida financeira em ordem; infelizmente algumas pessoas são presas fáceis e não resistem a frases como: “Últimas unidades”, “Só hoje”, “Somente para as primeiras 100 pessoas”, “Queima de estoque”, além das famosas “Black Friday” e “Depois não terá mais”.

Importante ressaltar que em algumas situações, essas ofertas são verdadeiras e representam boas oportunidades, mas em muitos casos, a urgência é apenas uma estratégia, é apenas uma arapuca comercial pronta para capturar os consumidores mais distraídos.

Talvez a maior dificuldade seja em aprender a adiar a compra daquilo que não é necessário. E não adianta colocar a culpa no “anjinho do mal” que sentado no ombro, sussurrando que comprar é uma ótima maneira de aliviar as dores da alma. No final das contas, resistir à vontade de gastar faz parte de aprender a cuidar melhor do próprio dinheiro.

Muito se fala que antes de comprar, é preciso pesquisar, comparar preços, avaliar o produto e pensar se vale a pena. Tudo isso é importante, mas talvez exista uma pergunta ainda mais simples: eu realmente preciso comprar?

Somos adultos e sem desculpas, precisamos reconhecer que na maioria das vezes, podemos simplesmente não gastar. Afinal, as chamadas “oportunidades imperdíveis” sempre existirão e as vitrines da vida estarão sempre cheias de motivos para nos convencer a abrir a carteira. É fato que muitas vezes, estamos comprando para nos sentirmos melhor, mesmo sem dinheiro ou até endividados.

Ainda assim é mais confortável colocar a culpa no vendedor, dizendo que fomos seduzidos por uma boa propaganda ou por argumentos convincentes. Até porque reconhecer que somos responsáveis pelas nossas escolhas, seja a parte mais incômoda dessa história.

Ainda assim é mais fácil culpar o vendedor.

PROVOCAÇÕES QUE DESPERTAM REFLEXÃO

Se o dinheiro está curto, porque você acredita que as pessoas gastam de forma descontrolada? Será que somente as outras pessoas gastam com besteiras ou as nossas bobagens são diferentes e merecem mais atenção? Se fazer a administração financeira pessoal é uma necessidade, porque será que as pessoas fogem deste assunto, não cuidam disso ou pelos não evitam gastar?

Paulo C. Andrighe

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