O problema não precisa ser o protagonista
Certa vez escutei alguém dizer: “Você não tem problemas. Se olhasse para os meus, entenderia o que são problemas de verdade”. Ela não estava errada e pode até parecer que são coisas simples para os outros, mas são os meus problemas, são minhas broncas, minhas coisas que preciso resolver, cada um com as suas tretas.
Indiferente se é uma unha encravada, um gramado de oito metros quadrados ou duas paredes da área de festa que precisam de pintura. Talvez não sejam grandes problemas e não importa o tamanho da dificuldade, se é seu, precisa ser resolvido e merece atenção.
Às vezes transformamos pequenos problemas em grandes crises, só quando olhamos para a grama do vizinho percebemos que nossas angústias podem ser pequenas diante do que outras pessoas enfrentam.
Enquanto reclamamos dos nossos poucos metros de gramado, alguém precisa cuidar de quarenta mil metros quadrados, uma mãe solo precisa lidar com a gravidez da filha ainda muito jovem, alguém recebe o diagnóstico de uma doença grave e terá pela frente anos de tratamento ou um pai que precisa ajudar o filho que se envolveu com drogas.
Isso não significa que nossos problemas não sejam relevantes, apenas nos lembra que aquilo que para nós é um problema, ao se olhar a grama do vizinho, se percebe que a imensidão de seu gramado, pode não ser motivo de inveja.
Ao olhar para a pia cheia de louça, o molho que caiu na camisa branca, o trânsito parado, um projeto que deu errado ou aquela mensagem enviada com alguns erros de português e que nunca foi respondida. Estava tudo certo para acontecer de uma determinada maneira, mas alguma coisa saiu errado e mudou de rumo, o que parecia simples acabou se transformando em mais uma preocupação. Talvez o problema não esteja apenas no que deu errado, mas na nossa dificuldade de aceitar que nem tudo seguirá o caminho que imaginamos.
Existem percalços que a vida coloca em nosso caminho e quando olhamos para eles com calma, percebemos que não deveriam ter tamanha importância, infelizmente eles são valorizados demais e aquilo que era apenas um desvio, passa a abalar todo o nosso caminhar. Desde pequenos aprendemos a querer que tudo aconteça como planejamos e não sabemos lidar com o sentimento de ser contrariado.
Fomos treinados para valorizar aquilo que rouba a nossa tranquilidade, quase nunca valorizamos o que está dando certo e os pequenos louros que conquistamos a todo instante, isso deveria ser uma rotina de exercício diário, quanto mais agradecemos os acertos, menos tempo sobra para transformar pequenos problemas em grandes crises. Talvez seja hora de parar de alimentar os problemas.
Derrubei molho na camisa. “Ainda bem que” foi somente nela e não em toda a roupa, melhor ainda que não estava quente, que é possível trocar de camisa e basta lavar para resolver.
Perdi o ônibus. “Ainda bem que” outro logo passa, que existem alternativas como Uber e mototáxis, que tenho pernas para caminhar e que bom, não está chovendo.
Infelizmente choveu e não vai dar para sair. “Ainda bem que” tem pipoca e muitos filmes na TV, que existem vários livros para serem lidos e que finalmente, podemos colocar em prática aquela organização do armário da despensa.
Aquela porta se fechou. “Ainda bem que” existem outras possibilidades a considerar. Talvez as próximas sejam mais interessantes, que tragam novas oportunidades e possam acrescentar muito mais do que aquilo que imaginávamos encontrar naquela que se fechou.
Do nada, uma discussão aconteceu entre o casal. “Ainda bem que” esse desconforto veio à tona, que ficou só no bate-boca, que revelou o que estava amortecido, rompeu o marasmo e mostrou que alguma coisa precisava mudar.
E aquela pessoa nos decepcionou. “Ainda bem que” isso aconteceu, porque a decepção fez nossos olhos enxergarem a realidade, foi empurrão necessário para olhar outras pessoas capazes de somar e ocupar espaços que antes estavam sendo dados a quem não os valorizava.
O dia de hoje foi terrível. “Ainda bem que” existem dias ruins. Eles nos mostram onde podemos melhorar, nos ensinam a ter mais paciência e nos convidam a buscar serenidade mesmo quando as coisas não saem como gostaríamos. Os dias difíceis nos fortalecem e acrescentam aquilo que os dias tranquilos jamais poderiam oferecer.
Esse tipo de atitude não significa negar os problemas, fingir que eles não existem ou acreditar que irão desaparecer sozinhos. Significa apenas não dar protagonismo para os problemas, porque infelizmente eles vão continuar a fazer parte da nossa vida.
Quando o problema deixa de ser o foco principal e não damos tamanha importância para ele, fica mais fácil encontrar respostas, simplificar a situação e assumir o controle das circunstâncias. Tudo fica mais simples quando os problemas deixam de ser potencializados e passam a ser vistos apenas como algo a ser enfrentando.
Os problemas fazem parte do processo. Alguns escolhem valorizá-los e transformá-los em martírios; outros preferem simplificar e pensar somente que “ainda bem que foi só isso.” É resolver o que precisa ser resolvido e continuar a caminhada.
PROVOCAÇÕES QUE DESPERTAM REFLEXÃO
Será que temos muitos problemas ou somente reclamamos demais dos problemas que temos? Desde quando nos acostumamos a valorizar o que está dando de errado e paramos de reconhecer o que
está dando certo em nossos movimentos? Pode ser que seja através da maturidade que possamos aprender a distinguir, entre aquilo que precisa ser resolvido e aquilo que não merece tirar o nosso sossego. Você consegue compreender essa distinção?
Paulo C. Andrighe



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